Se Francisco Cândido Xavier estivesse entre nós, completaria mais um ano de vida neste 2 de abril. Mas a verdade é que Chico nunca nos deixou. Sua presença, ainda que invisível aos olhos, continua a iluminar corações e a inspirar aqueles que buscam a paz em um mundo turbulento.
Diante da polarização feroz que assola o Brasil e o mundo, onde o ódio parece ter se tornado um idioma universal, é inevitável perguntar: o que diria Chico Xavier? Como reagiria esse homem que viveu a caridade em sua forma mais pura, sem jamais levantar a voz para dividir, mas sempre para acolher?
Chico nos ensinou que a maior revolução é a do amor. Não um amor teórico, preso às páginas de livros, mas um amor em ação, feito de gestos simples e profundos. Ele não se prendia a rótulos ou a discursos inflamados. Preferia o silêncio da prece ao barulho da intolerância. Se estivesse aqui, provavelmente nos pediria que olhássemos menos para as diferenças e mais para o que nos une.
Certa vez, ao ser questionado sobre sua postura diante das injustiças do mundo, Chico respondeu com humildade que a verdadeira transformação começa dentro de nós. Ele não incentivava o conformismo, mas sim a reforma íntima, a paciência ativa que move montanhas com a força do bem.
Seu compromisso com a verdade também era inabalável. Em uma época em que tanto se fala sobre a autenticidade dos fenômenos mediúnicos, estudos científicos foram conduzidos para verificar a veracidade de suas mensagens. Entre eles, um trabalho conduzido por pesquisadores norte-americanos e até uma análise mencionada por especialistas ligados à NASA apontaram a complexidade e coerência dos escritos de Chico, desafiando qualquer explicação convencional.
Mas Chico nunca precisou da validação da ciência para seguir sua missão. Sua maior prova estava na forma como viveu: com desapego, humildade e compaixão.
Nos últimos anos, alguns tentam associá-lo ao apoio à ditadura militar, baseando-se em sua participação no programa Pinga-Fogo, onde sugeriu que os brasileiros orassem pelos militares. Mas quem conhece a doutrina espírita sabe que a prece nunca foi um sinal de apoio incondicional, e sim um ato de compaixão cristã. O Espiritismo nos ensina que devemos orar até pelos nossos adversários, pois todos são espíritos em evolução.
Além disso, um resgate histórico importante revela outra faceta de Chico. Em 1935, antes mesmo da ditadura, ele psicografou mensagens publicadas pelo jornal O Globo, onde criticava o extremismo e o personalismo na política brasileira, defendendo a democracia como caminho para o progresso da nação. Esses registros mostram que sua essência sempre foi voltada à conciliação e à justiça, nunca ao autoritarismo.
Para compreender a postura de Chico Xavier diante do regime militar, é necessário olhar para o cenário da época com honestidade histórica. Caso uma ditadura do proletariado tivesse sido instaurada no Brasil em 1964, o país poderia ter vivenciado:
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Censura total da imprensa, permitindo apenas meios de comunicação estatais ou alinhados ao regime.
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Repressão a opositores, com perseguições e prisões de qualquer movimento político contrário.
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Nacionalização da economia, onde empresas privadas, bancos e terras poderiam ser expropriados.
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Repressão religiosa e cultural, proibindo religiões e manifestações consideradas "burguesas".
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Militância obrigatória, impondo a ideologia socialista no ensino e em diversas instituições.
Diante dessa ameaça, Chico pode ter enxergado o regime militar como um "mal menor" naquele momento. Seu pensamento não se pautava em ideologias políticas, mas na busca pelo equilíbrio e pela paz social. No entanto, o que deveria ter sido um governo transitório se prolongou por 21 anos, trazendo graves consequências como censura, tortura, mortes e a perseguição de muitos inocentes.
E foi justamente para alertar sobre os riscos dos extremos que o espírito de Emmanuel, mentor de Chico, transmitiu diversas mensagens desde 1935, alertando contra qualquer regime autoritário, seja de direita ou de esquerda. Emmanuel sempre deixou claro que o caminho da evolução passa pela democracia e pela liberdade de consciência.
Outro ponto que precisa ser abordado é a forma como, anos após sua desencarnação, alguns supostos "amigos" de Chico ainda tentam interpretar suas palavras conforme suas próprias visões. De tempos em tempos, surgem declarações feitas em seu nome, distorcidas ou fora de contexto, como se ele tivesse tomado partido em questões políticas ou sociais específicas. No entanto, quem realmente acompanhou sua trajetória sabe que Chico jamais impôs suas opiniões e sempre buscou o entendimento entre as diferenças. Ele não pregava o medo, nem alimentava teorias alarmistas, mas sim a esperança e a fé na regeneração do mundo.
Em tempos de radicalismos e discursos inflamados, sua resposta seria clara: amar, compreender, perdoar. O extremismo jamais encontrou espaço em seu coração.
Se hoje, tantos anos após sua partida, ainda nos perguntamos qual seria sua posição diante dos desafios contemporâneos, talvez a resposta esteja na simplicidade de seus gestos. Chico Xavier não escolheria um lado, mas sim a paz. Não atacaria, mas acolheria. Não se exasperaria, mas oraria.
E talvez, se prestarmos atenção, possamos ouvir sua voz suave nos lembrando que, no fim das contas, só o amor constrói.
Regih Silva