2 de abril de 2025

CHICO XAVIER: O HOMEM QUE NOS ENSINOU A AMAR





Se Francisco Cândido Xavier estivesse entre nós, completaria mais um ano de vida neste 2 de abril. Mas a verdade é que Chico nunca nos deixou. Sua presença, ainda que invisível aos olhos, continua a iluminar corações e a inspirar aqueles que buscam a paz em um mundo turbulento.

Diante da polarização feroz que assola o Brasil e o mundo, onde o ódio parece ter se tornado um idioma universal, é inevitável perguntar: o que diria Chico Xavier? Como reagiria esse homem que viveu a caridade em sua forma mais pura, sem jamais levantar a voz para dividir, mas sempre para acolher?

Chico nos ensinou que a maior revolução é a do amor. Não um amor teórico, preso às páginas de livros, mas um amor em ação, feito de gestos simples e profundos. Ele não se prendia a rótulos ou a discursos inflamados. Preferia o silêncio da prece ao barulho da intolerância. Se estivesse aqui, provavelmente nos pediria que olhássemos menos para as diferenças e mais para o que nos une.

Certa vez, ao ser questionado sobre sua postura diante das injustiças do mundo, Chico respondeu com humildade que a verdadeira transformação começa dentro de nós. Ele não incentivava o conformismo, mas sim a reforma íntima, a paciência ativa que move montanhas com a força do bem.

Seu compromisso com a verdade também era inabalável. Em uma época em que tanto se fala sobre a autenticidade dos fenômenos mediúnicos, estudos científicos foram conduzidos para verificar a veracidade de suas mensagens. Entre eles, um trabalho conduzido por pesquisadores norte-americanos e até uma análise mencionada por especialistas ligados à NASA apontaram a complexidade e coerência dos escritos de Chico, desafiando qualquer explicação convencional.

Mas Chico nunca precisou da validação da ciência para seguir sua missão. Sua maior prova estava na forma como viveu: com desapego, humildade e compaixão.

Nos últimos anos, alguns tentam associá-lo ao apoio à ditadura militar, baseando-se em sua participação no programa Pinga-Fogo, onde sugeriu que os brasileiros orassem pelos militares. Mas quem conhece a doutrina espírita sabe que a prece nunca foi um sinal de apoio incondicional, e sim um ato de compaixão cristã. O Espiritismo nos ensina que devemos orar até pelos nossos adversários, pois todos são espíritos em evolução.

Além disso, um resgate histórico importante revela outra faceta de Chico. Em 1935, antes mesmo da ditadura, ele psicografou mensagens publicadas pelo jornal O Globo, onde criticava o extremismo e o personalismo na política brasileira, defendendo a democracia como caminho para o progresso da nação. Esses registros mostram que sua essência sempre foi voltada à conciliação e à justiça, nunca ao autoritarismo.

Para compreender a postura de Chico Xavier diante do regime militar, é necessário olhar para o cenário da época com honestidade histórica. Caso uma ditadura do proletariado tivesse sido instaurada no Brasil em 1964, o país poderia ter vivenciado:

  • Censura total da imprensa, permitindo apenas meios de comunicação estatais ou alinhados ao regime.

  • Repressão a opositores, com perseguições e prisões de qualquer movimento político contrário.

  • Nacionalização da economia, onde empresas privadas, bancos e terras poderiam ser expropriados.

  • Repressão religiosa e cultural, proibindo religiões e manifestações consideradas "burguesas".

  • Militância obrigatória, impondo a ideologia socialista no ensino e em diversas instituições.

Diante dessa ameaça, Chico pode ter enxergado o regime militar como um "mal menor" naquele momento. Seu pensamento não se pautava em ideologias políticas, mas na busca pelo equilíbrio e pela paz social. No entanto, o que deveria ter sido um governo transitório se prolongou por 21 anos, trazendo graves consequências como censura, tortura, mortes e a perseguição de muitos inocentes.

E foi justamente para alertar sobre os riscos dos extremos que o espírito de Emmanuel, mentor de Chico, transmitiu diversas mensagens desde 1935, alertando contra qualquer regime autoritário, seja de direita ou de esquerda. Emmanuel sempre deixou claro que o caminho da evolução passa pela democracia e pela liberdade de consciência.

Outro ponto que precisa ser abordado é a forma como, anos após sua desencarnação, alguns supostos "amigos" de Chico ainda tentam interpretar suas palavras conforme suas próprias visões. De tempos em tempos, surgem declarações feitas em seu nome, distorcidas ou fora de contexto, como se ele tivesse tomado partido em questões políticas ou sociais específicas. No entanto, quem realmente acompanhou sua trajetória sabe que Chico jamais impôs suas opiniões e sempre buscou o entendimento entre as diferenças. Ele não pregava o medo, nem alimentava teorias alarmistas, mas sim a esperança e a fé na regeneração do mundo.

Em tempos de radicalismos e discursos inflamados, sua resposta seria clara: amar, compreender, perdoar. O extremismo jamais encontrou espaço em seu coração.

Se hoje, tantos anos após sua partida, ainda nos perguntamos qual seria sua posição diante dos desafios contemporâneos, talvez a resposta esteja na simplicidade de seus gestos. Chico Xavier não escolheria um lado, mas sim a paz. Não atacaria, mas acolheria. Não se exasperaria, mas oraria.

E talvez, se prestarmos atenção, possamos ouvir sua voz suave nos lembrando que, no fim das contas, só o amor constrói.


Regih Silva





31 de março de 2025

A CULTURA INCEL E A EDUCAÇÃO À LUZ DO ESPIRITISMO




A cultura incel tem se expandido na sociedade contemporânea, sendo retratada em produções audiovisuais como a série Adolescência, da Netflix. A trama gira em torno de Jamie Miller (Owen Cooper), um estudante de 13 anos que enfrenta dificuldades de socialização, nutre ressentimentos contra o sexo oposto e acaba sendo acusado de assassinar uma colega de classe com sete facadas. A série levanta reflexões importantes sobre como a frustração afetiva pode ser canalizada de forma negativa quando não há um suporte emocional adequado. No entanto, ainda que a tecnologia e as redes sociais amplifiquem essa realidade, não podemos ignorar que tais tendências pertencem ao espírito reencarnante, refletindo experiências passadas e predisposições morais que precisam ser trabalhadas nesta existência.

O Espiritismo ensina que cada espírito renasce trazendo consigo as marcas de suas vivências pretéritas, e é dever da família e da sociedade educá-lo, guiando-o para o caminho do bem. Como destaca Allan Kardec em O Livro dos Espíritos, na questão 208: “Desde o berço a criança manifesta os instintos bons ou maus que traz de sua existência anterior; é necessário que os pais estudem essas tendências”. Mais do que isso, os Espíritos dos pais exercem uma influência direta sobre os filhos, mesmo após o nascimento. Como os Espíritos têm a missão de contribuir para o progresso uns dos outros, os pais são responsáveis por desenvolver o espírito dos filhos por meio da educação. “Constitui-lhes isso uma tarefa. Tornar-se-ão culpados, se vierem a falir no seu desempenho”. A omissão na formação moral dos filhos pode trazer consequências graves para sua trajetória evolutiva, bem como para o equilíbrio da sociedade.

O estudo dos fenômenos da alma nos mostra que a manifestação da maldade pode ocorrer desde a infância. Um caso impactante foi registrado na Revista Espírita de 1858, onde Kardec analisa a história de um menino de 12 anos que assassinou cinco crianças. Resumidamente, ele trancou cinco crianças dentro de um baú e as deixou lá até a morte. Quando uma testemunha revelou o ocorrido, ele confessou tudo, com o maior sangue-frio e sem demonstrar arrependimento. Seguindo no artigo, Kardec interroga o Espírito da irmã de um médium, “que desencarnou há doze anos e sempre mostrou superioridade como Espírito”. Dentre as respostas, destaca-se esta reflexão:

─ Que motivos teriam impelido um menino daquela idade a cometer uma ação tão atroz e com tamanho sangue-frio? ─ “A maldade não tem idade”. Ela é natural numa criança e raciocinada no homem adulto.

Chico Xavier, ao refletir sobre a infância e a delinquência juvenil, alertou: “Hoje ouvimos falar de muitos crimes cometidos por meninos de 10, 14 anos… Deveríamos tratar de códigos que dessem a maioridade aos 14 anos. A criança é chamada a memorizar as suas vidas passadas muito depressa, motivada pela televisão, etc. Precisávamos da criação de leis que ajudem a criança a não se fazer delinquente nem viciada.” Essa visão ressalta a necessidade de um acompanhamento atento desde a infância, pois a formação moral não pode ser terceirizada ao governo ou à escola, mas sim consolidada no seio familiar, onde a alma reencarnante encontra os primeiros referenciais de conduta.

No que diz respeito à influência da tecnologia, é essencial compreender que jogos violentos, filmes e redes sociais não criam psicopatas, mas podem estimular tendências latentes quando não há uma base emocional e moral bem estruturada. Espíritos já propensos à violência e à frustração podem encontrar nesses meios uma válvula de escape para seus sentimentos destrutivos. Isso reforça a necessidade do acompanhamento familiar e do ensino de valores como respeito, empatia e autoconhecimento, para que os jovens aprendam a lidar com suas emoções de forma equilibrada.

A cultura incel, em sua essência, reflete espíritos que carregam consigo frustrações e sentimentos de inadequação, muitas vezes agravados pela ausência de orientação e acolhimento familiar. Em vez de alimentar a vitimização e a revolta, é dever dos pais e educadores promover uma visão mais espiritualizada da vida, mostrando que desafios afetivos fazem parte do aprendizado terreno e que o verdadeiro valor de cada indivíduo não está na aceitação externa, mas na evolução interior.

A transformação social e espiritual começa na educação da alma. Se queremos um futuro onde a intolerância e o ódio não tenham espaço, devemos, desde cedo, plantar as sementes do amor, da responsabilidade e do respeito ao próximo. Como certa vez falou um grande confrade: "A criança bem educada no presente, será menos um obsessor no futuro".

Regih Silva

27 de março de 2025

MARX E KARDEC: IDEIAS OPOSTAS OU CAMINHOS COMPLEMENTARES?

 


Embora Karl Marx e Allan Kardec defendam contextos distintos, há um ponto em comum em suas reflexões: a crítica à religião como ferramenta de alienação. Marx via a religião como um mecanismo que mantinha as pessoas anestesiadas, fazendo com que aceitassem passivamente as dificuldades da vida sem questionar as estruturas de poder que as oprimiam. Para ele, a fé, ao invés de libertar, muitas vezes servia como um consolo ilusório, desviando a atenção das injustiças sociais.

Kardec, por sua vez, não negava a importância da espiritualidade, mas se opunha ao dogmatismo e à imposição cega de crenças. Ele defendia um espiritismo baseado na razão, na investigação e no progresso moral, sem sacerdotes, rituais ou hierarquias que submetessem o indivíduo a uma fé imposta. Seu objetivo não era substituir a religião por outro tipo de crença passiva, mas sim estimular o pensamento livre e consciente sobre a existência e a espiritualidade.

Se, para Marx, a religião era um ópio que amortecia a dor da realidade sem resolvê-la, para Kardec, o conhecimento espiritual deveria ser um instrumento de libertação, ajudando o ser humano a compreender sua jornada de forma mais lúcida e autônoma. O espiritismo, em sua essência, não buscava prender, mas despertar.

Marx e Kardec: uma possível conexão

Uma tese intrigante foi levantada no Brasil pelo pesquisador espírita Clóvis Nunes, um dos mais respeitados especialistas em Transcomunicação Instrumental (TCI). Segundo ele, um personagem misterioso mencionado no livro "Obras Póstumas", de Allan Kardec, poderia ser ninguém menos que Karl Marx.

No diário de Kardec, há o relato de uma sessão mediúnica realizada em 30 de abril de 1856, na qual ele recebeu a primeira revelação de sua missão como codificador do espiritismo. Durante essa comunicação, outro homem presente à reunião, chamado apenas de "Sr. M.", também foi citado:

“(...) A ti, M..., a espada que não fere, porém mata; contra tudo o que é, serás tu o primeiro a vir. Ele, Rivail, virá em segundo lugar: é o obreiro que reconstrói o que foi demolido.”

Kardec descreveu o Sr. M. como um jovem de opiniões extremas, envolvido com política e com necessidade de agir discretamente. No entanto, afirmou que ele era um homem pacífico, embora comprometido com a ideia de uma revolução.

Mais tarde, em uma nova sessão mediúnica, Kardec questionou o Espírito da Verdade sobre esse personagem:

Kardec: Que pensa de M...? É homem que venha a influir nos acontecimentos?
Espírito Verdade: "Muito ruído. Ele tem boas ideias; é homem de ação, mas não é uma cabeça."

O espírito ainda alertou Kardec a não se aproximar dele, pois suas ideias estavam ligadas a um movimento revolucionário de grande impacto.

Segundo Clóvis Nunes, a descrição do Sr. M. corresponde exatamente a Karl Marx, que, de fato, estava em Paris nessa época. A referência à "espada que não fere, porém mata" poderia simbolizar sua influência pacífica como pensador, enquanto o Partido Comunista, personificado nele, seria o responsável pela revolução que "demoliria" a estrutura vigente.

Curiosamente, no clássico "O Capital", de Marx e Engels, há uma nota que menciona o crescente interesse da burguesia europeia pelo espiritismo. Engels, por sua vez, criticava Marx por gastar tempo com o que chamava de "jogo da mesa dançante", referindo-se às reuniões espíritas que ocorriam naquela época.

Contudo, a questão levantada por Marx e Kardec continua relevante: a religião é um instrumento de controle ou um caminho para a emancipação? Enquanto Marx a via como um meio de perpetuar a desigualdade social, Kardec propunha uma nova abordagem espiritual, livre de imposições e aberta ao questionamento.

A possibilidade de que Marx e Kardec tenham se cruzado, mesmo que indiretamente, traz um novo ângulo para essa discussão. Se Marx buscava destruir as ilusões que mantinham o povo submisso, Kardec propunha uma nova forma de compreender a existência, baseada na razão e no livre pensamento.

Ambos, à sua maneira, sugerem que a verdadeira evolução do ser humano está no conhecimento e na liberdade de pensar. Assim, cabe a cada um refletir: a fé que sigo me liberta ou me aprisiona?

Regih Silva 

24 de março de 2025

REFLEXÕES SOBRE A ACUSAÇÃO DE "DITADURA DO JUDICIÁRIO NO BRASIL"

 



A Doutrina Espírita nos ensina que a justiça divina é infalível e que toda ação tem consequências. Jesus nos orienta a buscar a verdade, pois somente ela nos libertará. Diante das turbulências políticas do Brasil, é necessário refletirmos com base nesses ensinamentos e compreendermos os desafios que atravessamos sob a ótica do progresso moral.  

Nos últimos tempos, tem-se difundido a narrativa de que o Brasil vive uma "ditadura do Judiciário". Essa afirmação, no entanto, não resiste a uma análise criteriosa. O que vemos, na realidade, é a Justiça cumprindo seu papel constitucional de garantir o equilíbrio entre os poderes e a manutenção do Estado Democrático de Direito. O ex-presidente e seus seguidores, inconformados com as consequências de seus atos, criaram essa falácia para enganar aqueles que ainda se deixam levar por discursos inflamados e desprovidos de fundamento.  

O Espiritismo nos ensina que o orgulho e o egoísmo são os maiores entraves ao progresso da humanidade. O ex-presidente, que deveria ter sido um servidor do povo e um exemplo de ética na "Pátria do Evangelho", agiu em sentido contrário, estimulando a desunião e o descrédito das instituições. Agora, diante da iminente responsabilização por seus atos, tenta distorcer a realidade, acusando o Judiciário de perseguição quando, na verdade, apenas colhe os frutos de suas próprias escolhas.  


Exemplo disso é a distorção dos fatos no caso de Débora, manifestante bolsonarista que pode ser condenada a 14 anos de prisão. Narrativas enganosas alegam que ela foi punida apenas por pichar a estátua da Justiça, quando, na verdade, a condenação se deu pela prática de crimes muito mais graves. Além da deterioração do patrimônio tombado, que por si só teria pena branda, ela foi responsabilizada por tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, dano qualificado com violência e associação criminosa armada. A sentença reflete a gravidade dos atos cometidos no contexto da tentativa de ruptura institucional em 8 de janeiro de 2023, e não um suposto abuso do Judiciário.  

No último domingo, 16 de março de 2025, uma manifestação flopada demonstrou que a população brasileira, de maneira geral, não mais se deixa enganar. Tentativas de inflar números e criar uma ilusão de apoio popular não alteram o fato de que a verdade sempre prevalece. Como nos ensina Allan Kardec, "Os Espíritos superiores combatem o erro, não com violência, mas com o raciocínio". Assim, devemos agir: combatendo a desinformação com a luz do esclarecimento.  

A crítica ao ministro Alexandre de Moraes, acusado injustamente de autoritarismo, é um reflexo do inconformismo de quem não aceita a Justiça atuando. O verdadeiro ditador não é aquele que faz cumprir as leis, mas sim quem, no poder, tentou desvirtuá-las para seu próprio benefício. Como ensina "O Livro dos Espíritos", a lei de Deus está baseada na justiça, no amor e na caridade, e é sob esses princípios que devemos pautar nosso entendimento dos acontecimentos políticos.  

Diante desse cenário, a postura espírita deve ser de vigilância moral e compromisso com a verdade. Devemos incentivar o diálogo, a busca pelo entendimento e a disseminação de informações corretas, para que a sociedade possa evoluir de forma consciente e responsável. O Brasil caminha para um futuro mais justo e equilibrado, e cabe a cada um de nós contribuir para essa construção com serenidade e discernimento.  

Que possamos, como trabalhadores do bem, atuar para que a justiça, a democracia e o respeito prevaleçam, sempre sob a luz da espiritualidade e da verdade.


Regih Silva

21 de março de 2025

GANDHI: COMO UM ESPÍRITO SUPERIOR PODE TER SIDO RACISTA?


 

Hoje me deparei logo cedo com a seguinte notícia: Atriz  Karla Sofía Gascón, diz que é ‘menos racista que Gandhi’. Logo, fui pesquisar se Gandhi, de fato, havia sido alguma vez racista e, para nossa surpresa, descobrimos que sim. Como espíritas que somos, de imediato surgiu a pergunta: Como pode um espírito superior como Gandhi ter sido racista? 

Neste texto, explico todo esse enredo à luz da Doutrina Espírita.

Há registros escritos do próprio Gandhi que demonstram que, durante seu período como advogado na África do Sul, quando ainda era jovem, por volta dos 20 anos, ele tinha posturas racistas. Em 1903, ele chegou a escrever que os brancos deveriam ser “a raça predominante” e descreveu os negros como problemáticos, sujos e vivendo como animais. O biógrafo Ramachandra Guha afirmou, em entrevista à NPR, que Gandhi, quando jovem, acreditava que os europeus eram o povo mais civilizado, seguidos pelos indianos, enquanto os africanos eram comparáveis a bichos.

Diante disso, surge o questionamento: como pode um espírito superior ter sido racista?

O Progresso do Espírito: Inteligência vs. Moralidade

A Doutrina Espírita explica que os espíritos progridem de maneira gradual e nem sempre evoluem de forma equilibrada em todas as áreas. Isso está claramente abordado na Questão 365 do Livro dos Espíritos, onde Kardec pergunta:

“Por que é que alguns homens muito inteligentes, o que indica acharem-se encarnados neles Espíritos superiores, são ao mesmo tempo profundamente viciosos?”

Os Espíritos respondem:

“É que não são ainda bastante puros os Espíritos encarnados nesses homens, que, então, e por isso, cedem à influência de outros Espíritos mais imperfeitos. O Espírito progride em insensível marcha ascendente, mas o progresso não se efetua simultaneamente em todos os sentidos. Durante um período da sua existência, ele se adianta em ciência; durante outro, em moralidade.”

Isso significa que um espírito pode trazer consigo uma grande capacidade intelectual e ser missionário do bem, mas ainda ter imperfeições morais a serem corrigidas. No caso de Gandhi, sua inteligência e liderança foram notáveis, mas sua moralidade ainda estava sujeita a desafios no início da vida.

O Caso Segismundo e a Programação Reencarnatória

No livro Missionários da Luz, André Luiz relata o caso de Segismundo, que precisava reencarnar para resgatar faltas do passado, mas encontrava resistência de seu futuro pai, Adelino. Esse caso ilustra como o planejamento reencarnatório pode ser complexo e atender a múltiplos propósitos.

O mentor Alexandre explica que há dois tipos principais de reencarnação:

  1. As comuns, que seguem um padrão evolutivo normal.
  2. As complexas, que envolvem espíritos trabalhadores e missionários, os quais possuem muitas qualidades superiores, mas ainda têm débitos a resgatar.

Gandhi se enquadra nesse segundo caso. Apesar de ser um espírito elevado, sua encarnação na Terra teve desafios e imperfeições a serem corrigidas. A reencarnação é o meio, e a educação divina é o fim. Por isso, espíritos como Gandhi passam por lutas que os corrigem, restauram e aperfeiçoam.

A Lei do Progresso e a Reforma Íntima

A Doutrina Espírita ensina que a Lei do Progresso rege tanto a evolução individual quanto a das sociedades. O próprio biógrafo Ramachandra Guha destacou que Gandhi superou seu racismo de forma bastante decisiva e, durante a maior parte de sua vida pública, tornou-se um defensor fervoroso do antirracismo e do fim de toda forma de discriminação. Seu compromisso com a igualdade foi tão intenso que influenciou diretamente ninguém menos que Martin Luther King Jr.

King visitou a residência de Gandhi, onde os pertences do Mahatma, como seu colchão e sapatos, ainda estavam. Profundamente impactado, afirmou que sentia a presença espiritual de Gandhi naquele lugar. Conforme relatado pelo curador Usah Thakkar, em matéria da NPR, King, mesmo hospedado em um hotel confortável, recusou-se a ficar em outro lugar. Ele disse:

"Vou ficar aqui, porque estou sentindo as vibrações de Gandhi."

A Missão dos Espíritos Superiores na Terra

Os espíritos superiores que aceitam reencarnar na Terra muitas vezes assumem desafios e provas que lhes permitem atuar como instrumentos do progresso coletivo. Gandhi demonstrou que, mesmo começando com visões equivocadas, um espírito pode se transformar e deixar um legado de amor e justiça para a humanidade.

A trajetória do Mahatma nos ensina que não devemos julgar um espírito unicamente por seus erros do passado, mas sim pela totalidade de sua jornada e pelos valores que abraçou ao longo da vida. Sua grandeza não se definiu por pensamentos imaturos da juventude, mas pela transformação que empreendeu e pela luta incansável em prol da igualdade e da paz. Da mesma forma, desejamos que Karla Sofía, assim como todos nós, continue trilhando o caminho do aprendizado e da evolução moral.

Regih Silva

 

18 de março de 2025

DIVALDO FRANCO: E SEUS EQUÍVOCOS CONTRA MARX E O SOCIALISMO

 


Divaldo Pereira Franco é um dos médiuns e oradores espíritas mais conhecido do Brasil, por suas palestras e obras que difundem o espiritismo. No entanto, suas falas sobre temas políticos e históricos nem sempre se sustentam em fatos. Um exemplo disso é um discurso atribuído a ele em que critica o socialismo e Karl Marx de maneira equivocada. 

Vejamos:

“Estávamos acostumados a um cristianismo de natureza débil, pois que na primeira oportunidade rebelaram-se as pessoas denominadas de esquerda que adotaram o comportamento socialistas, comunistas com a destruição do conceito de fé e particularmente de cristianismo; seja de cristianismo, seja de judaísmo.

Na obra de Marx, apresentada como solução para os problemas do século XIX, ele tem a oportunidade de apresentar logo depois no século XX o seu "Capital".  A doutrina do capital e está doutrina estendeu-se de Moscou e de Londres para o mundo, apresentando várias visões da filosofia socialista em regime político de devastação.

Um dos primeiros itens de Marx é exatamente destruir a família, desintegrar a harmonia da criatura humana. Porque uma sociedade não familiar é uma sociedade insegura que qualquer direção lhe basta, principalmente se for uma direção ditatorial, esmagadora em que o direito de propriedade e individualidade desaparece para o controle do Estado."

Neste artigo, analisaremos os erros presentes nessa argumentação e como tais equívocos comprometem a credibilidade de sua fala.

A Suposta "Fraqueza" do Cristianismo e a Rebelião da Esquerda

Divaldo Franco argumenta que a esquerda teria se rebelado contra um cristianismo "débil", associando ideologias socialistas e comunistas à destruição da fé cristã e judaica. Essa visão simplifica a complexa relação entre cristianismo e política. O cristianismo, ao longo da história, inspirou tanto movimentos conservadores quanto progressistas. Diversas figuras cristãs, como Dom Hélder Câmara, Martin Luther King Jr., e Leon Denis defenderam ideias sociais sem que isso significasse uma negação da fé.

Erro Sobre "O Capital" e Sua Difusão

Outro equívoco de Divaldo Franco é a afirmação de que Karl Marx teria apresentado O Capital no século XX, quando, na verdade, a obra foi publicada em 1867, no século XIX. Além disso, sua difusão não ocorreu apenas por Moscou e Londres, mas por diversas regiões do mundo, influenciada por diferentes contextos históricos e sociais.

Marx e a "Destruição da Família"

Outro erro do médium é afirmar que Marx tinha como objetivo destruir a família. No Manifesto Comunista, Marx e Engels criticam a estrutura da família burguesa da época, que, segundo eles, refletia as relações de exploração do capitalismo. No entanto, essa crítica não significa a defesa da destruição da família em si, mas sim da transformação das relações sociais para que não estejam baseadas em exploração e opressão.

Ditadura, Propriedade e Controle Estatal

Divaldo Franco também comete um erro ao afirmar que o socialismo visa eliminar a propriedade privada e a individualidade em favor do controle do Estado. O marxismo propõe a abolição da propriedade privada dos meios de produção (fábricas, grandes empresas, terras improdutivas), mas isso não significa tirar das pessoas suas casas, bens pessoais ou sua individualidade. Além disso, associar socialismo diretamente a regimes ditatoriais ignora a existência de correntes socialistas democráticas, que buscam equilibrar justiça social e liberdade individual.

Contudo, Divaldo Franco é uma figura importante no espiritismo, mas suas falas sobre história e política precisam ser analisadas criticamente. Seus equívocos sobre Marx, socialismo e a relação entre cristianismo e esquerda demonstram uma interpretação distorcida da realidade.

Não é de hoje que Divaldo atribui a Karl Marx situações e ideias que o filósofo alemão nunca defendeu. Um exemplo claro desse erro ocorreu no 34º Congresso Espírita de Goiás, em fevereiro de 2018, quando foi questionado sobre a ideologia de gênero. Em vez de esclarecer que o termo "ideologia de gênero" é usado, principalmente, por grupos contrários às discussões sobre identidade de gênero e diversidade, mas não corresponde a uma teoria acadêmica reconhecida., o médium preferiu responsabilizar Marx, cometendo mais um equívoco e demonstrando sua péssima influência política.

Transcrevemos aqui parte de sua fala:

"A tese é profundamente comunista e ela foi lançada por Marx, sobre outras condições, que a melhor maneira de submeter um povo não era escravizá-lo economicamente, era escravizá-lo moralmente. Como nós vemos através de vários recursos que têm sido aplicados no Brasil, nos últimos nove anos, dez, em que o Poder Central tem feito todo o esforço para tornar-se o patrão de uma sociedade em plena miséria econômica e moral."

Não há qualquer menção a "ideologia de gênero" nas obras de Marx. A associação entre marxismo e destruição moral da sociedade é uma falácia construída por setores políticos conservadores para demonizar tanto as ideias socialistas quanto os avanços nos direitos sociais.

Quando Divaldo Franco emite opiniões políticas sem embasamento, não apenas desinforma, mas compromete sua credibilidade como espírita. O espiritismo deve ser um espaço de esclarecimento e elevação moral, e não de distorção histórica e manipulação ideológica.

Regih Silva


17 de março de 2025

O PROCEDIMENTO DO ESPÍRITA DIANTE DO ABUSO SEXUAL, VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E PSICOLÓGICA

 


A Doutrina Espírita, alicerçada no Evangelho de Jesus e nos ensinamentos dos Espíritos Superiores, não compactua com qualquer tipo de violência, seja ela sexual, doméstica ou psicológica. Pelo contrário, propõe a justiça, o respeito à dignidade humana e a proteção dos mais vulneráveis, conforme ensina a máxima do Cristo: “Não façais aos outros o que não quereis que vos façam” (Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XI, item 4).

Diante dessas agressões, o espírita não deve se omitir ou justificar o sofrimento com a lei de causa e efeito. Embora o passado espiritual possa influenciar as experiências da existência atual, tal conhecimento jamais deve servir para validar o mal ou manter alguém em situação de dor. Deus é justiça, mas também é amor, e seu propósito é a evolução dos Espíritos, jamais a perpetuação do sofrimento.

O QUE FAZER DIANTE DA VIOLÊNCIA?

  1. Denunciar e buscar ajuda – Toda forma de abuso e violência deve ser comunicada às autoridades competentes. O silêncio, muitas vezes, perpetua o sofrimento e fortalece o agressor. Como nos ensina o Espírito Emmanuel: “Compadecer-se não significa compactuar” (Livro da Esperança, Cap. 20).

  2. Apoiar e acolher a vítima – O espírita deve se posicionar ao lado da vítima, oferecendo apoio emocional, espiritual e, se possível, material. Jesus sempre acolheu os sofredores, jamais os ignorou ou os submeteu a mais dor.

  3. Procurar auxílio profissional e espiritual – A saúde mental e física deve ser prioridade. Além de terapias convencionais, o Evangelho no Lar, a oração e o passe magnético são recursos valiosos para o fortalecimento espiritual.

  4. Não se submeter a relacionamentos destrutivos – O matrimônio ou laços familiares não são grilhões espirituais imutáveis. Allan Kardec esclarece que os Espíritos podem se unir por afinidade, mas também podem estar ligados por provas e expiações. No entanto, jamais a espiritualidade impõe que alguém permaneça em um ambiente destrutivo (O Livro dos Espíritos, questões 695-697).

E O PERDÃO?

O perdão, dentro da visão espírita, não significa conivência com o erro nem convivência obrigatória com o agressor. Perdoar é libertar-se do ódio e do desejo de vingança, mas isso não implica renunciar à justiça. O próprio Cristo ensinou a buscar a reconciliação, mas jamais incentivou a submissão ao mal.

O Espírito Joanna de Ângelis ensina: “O perdão é libertação para quem o concede, porque se desvincula da sombra do passado” (O Homem Integral, Cap. 9). Assim, a vítima, ao perdoar, livra-se do peso emocional do sofrimento, mas isso não anula a necessidade de responsabilização do agressor perante as leis humanas e divinas.

Contudo, o espírita deve ter uma postura ativa contra qualquer forma de violência. A omissão ou a crença de que "é um resgate necessário" são distorções dos princípios espíritas. A justiça humana deve ser acionada, e o agressor deve responder pelos seus atos. O perdão é um processo interior de libertação, mas nunca deve ser confundido com a aceitação do mal.

A verdadeira caridade, conforme ensina o Espiritismo, é agir em favor do bem, protegendo os inocentes e amparando os necessitados. Assim, o espírita, inspirado pelos exemplos de Jesus, deve ser um agente de transformação, combatendo o sofrimento e promovendo o respeito à dignidade humana.

Como bem nos alerta Joanna de Ângelis: 

“Ama sempre, mas não te permitas relacionamentos conflituosos sob a justificativa de que tens a missão de salvar o outro, porque ninguém é capaz de tornar feliz aquele que a si mesmo se recusa à alegria de ser pleno.”


Acesse o nosso vídeo e conheça os tipos de casamentos, segundo o espiritismo. Aproveitem e curtam o nosso canal: 
Falando de Espiritismo: Casamento e os seus tipos